quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz vinho novo

Eh pá, ontem comprei um tinto de 2015. Terra d'Alter, o tal australentejano. Bebi-o ao jantar e hoje ao almoço, com mais curiosidade do que satisfação. O vinho está adstringente e fechado no tocante a aromas. Olhem, vai bem é com uma daquelas guloseimas algarvias em massa de amêndoa e doce e fios de ovos. Ou com uma batatinha de maçapão. Ou com as duas.

Feito de Trincadeira, Aragonez e Syrah, diz que passou seis meses em carvalho francês. Seis meses. Portanto, isto é vinho de Junho, Julho, o mais tardar. O sol em Fronteira está forte, ó Peter.

Para não pensarem que estou a mangar.

Feliz vinho novo! Feliz ano novo!

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Apanhei-te, Beaujolinho

Senhoras e senhores, amigos leitores. Ontem, abandonado, apeado, desterrado, e por todas as formas impossibilitado de rumar à Festa do Vinho Novo no Café Tati, como apetecia, mas profissionalmente obstinado e provisoriamente ousado, montei-me no meu fiel duas-pernas e caminhei mais de seis quilómetros em busca de uma garrafa de Beaujolais Nouveau. Quer dizer, deu-me a maluqueira. Ou será que tenho um problema com a bebida? Fosse o que fosse, passou-me tudo quando me sentei a beber sensivelmente o meu quartilho de Gamay.

Grâces à Dieu.

Quanto a notas de prova, basta repetir as de Bernard Pivot, que não falham por muito: «um vinho alegre, arrojado, de bochechas vermelhas, boca de Primavera, que se degusta menos do que se emborca como um elixir de juventude e de bom humor»; «uma curiosidade, uma felicidade de circunstância, uma gulodice temporã e apetitosa», com «os seus aromas de pomar de padre e de canteiro de professor primário».

À votre, amis français.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Vinho novo, vida nova

«Para compreender o sucesso fenomenal do beaujolais nouveau, é preciso ser melhor psicólogo do que enólogo. Novembro é o mês mais triste do ano. Tempo frio, húmido, ventoso. O Verão e as férias não são mais do que fotografias. No dia 1 ou 2, visitou-se os cemitérios. O dia 11 celebra a vitória de milhões de mortos. Há sempre greves. O Natal parece ainda muito longe. Aborrece-se. Tem-se o moral nas meias. E eis que, na terceira quinta-feira, irrompe um vinho alegre, arrojado, de bochechas vermelhas, boca de Primavera, que se degusta menos do que se emborca como um elixir de juventude e de bom humor. Na melancolia do Outono, uma vontade de festa popular exprime-se através do beaujolais nouveau. A sua sorte é chegar no momento certo.

Não é senão uma curiosidade, uma felicidade de circunstância, uma gulodice temporã e apetitosa. Em Tóquio como em Nova Iorque, em Vancouver como em Seul, ele destoa, porque é um dos raros produtos a afastar-se da tradição do grande luxo à francesa. Recebe-se-lo sem cerimónias e aprecia-se — senão, porque o beberiam estes estrangeiros? — os seus aromas de pomar de padre e de canteiro de professor primário.»

Bernard Pivot, em Dictionnaire Amoureux du Vin (2006)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Damasceno 2013 (branco)


Quinta da Serralheira – Vinhos. Regional Península de Setúbal. Fernão Pires, Chardonnay, Verdelho. Nuno Cancela de Abreu (enol.). 13,5% vol. 14 € (?) (490 Taberna STB).

Citrino como um limão maduro nos aromas, arredondado nos sabores, mineral nos confins. Deu excelente conta de si com duas ostras de Setúbal (tão-só as que restavam às 14h de um domingo de Verão), um tachinho de mexilhões e um delicado arroz de lingueirão.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Quinta do Boição 2000


Caves Velhas. Regional Estremadura (Bucelas). Trincadeira, Castelão, Tinta Miúda, Camarate. 13% vol. 1 € (Caves Velhas).

Um bouquet muito capaz, com notas aromáticas de couro, compota, licor, flores, plantas balsâmicas, eucalipto, unto, cogumelos, osmazoma, fumo, bacon, caramelo tostado etc. Boa acidez e bom travo.

Dê-se-lhe tempo! Nisto de vinhos velhos (e nos novos, igual; e nos whiskies; e em tudo), nem hesitações, nem precipitações. Há que deixá-los perder o pivete da garrafa, assentar e abrir. Que é como quem diz, não entrar a matar. Um bom princípio geral.

Custa um euro (o negócio é duas garrafas, dois euros) na Enoteca das Caves Velhas. O Casal da Eira, também ali à venda, já se atira aí prò euro e meio. Mas é preciso ver que é em Tetra Brik.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Chão do Prado 2014


António João Paneiro Pinto. DOC Bucelas. Arinto, Esgana-Cão. Paulo Laureano (enol.). 12% vol. Cerca de 4 € (El Corte Inglés).

Cheira a pêra madura. Na boca sente-se o mesmo aroma, mas está um branco essencialmente citrino e muito vibrante. A par do Morgado de Bucelas (não comparando, mas será um exercício interessante), é um dos meus Bucelas preferidos: esperto, modesto, típico, livre de mariquices e saloiadas. Quer dizer, se é esperto e de Bucelas, pode-se falar em esperteza saloia. Mas não é nenhum «wine of Shakespeare». (Inventar por inventar, mais valia irem chul—chatear o Camões.) Rejubilemos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

JA 2011


Um Bife à Café Lisboa — reencarnação do vetusto Bife à Marrare, com «um molho de carne à séria» — um caldo feito com os ossos e as aparas da carne, ligado com um tantesquinho de natas, de mostarda ou de manteiga — e uma garrafa de JA tinto, sob os tectos augustos do Teatro Nacional de São Carlos. Um sopro de civilização na choldra ignóbil.


Quinta do Monte d'Oiro. Regional Lisboa (Alenquer). Syrah. Graça Gonçalves (enol.) (?). 13% vol. 15 € (Café Lisboa).

Com notas aromáticas lembrando ameixas e cerejas, mas também osmazoma e fumo, está um tinto delicado e elegante, de um brilho palatável — quer dizer, magicando na boca uma sensação de brilho. Supinamente gastronómico, como tinha de ser um vinho produzido por José Avillez e José Bento dos Santos na Quinta do Monte d'Oiro.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Cheers, Ralfy!


«Porquê importarmo-nos com a qualidade? Resposta simples. Aqui vamos: porque a qualidade daquilo com que nos ocupamos durante as nossas vidas ajuda a definir a qualidade da nossa vida. O que quer que seja.»

«Não sou um especialista, nunca quis ser um especialista. O que sou é um experimentado bebedor de whisky. Pouco e frequentemente, segredo do sucesso, pouco e frequentemente. E o que é importante para mim é a qualidade do sabor. Snobs do malte e pessoas que têm largos orçamentos não terão interesse nestes [whiskies]. Tudo bem. Mas lembrem-se disto, e deixo-os com este pensamento: muitas vezes nem sequer é a qualidade do whisky no seu copo; é a qualidade da sua circunstância, da sua situação e da companhia em que está.»

Alhures, três conselhos para noviços:

«Não perca tempo com maus whiskies. Não perca tempo com más companhias. Não ponha o seu dinheiro todo no banco.»

Viva o mestre Ralfy, amador de whisky (diga-se escocesmente ruíssequi) e um vloguista de primeira qualidade!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Blogopsicografia

O bloguista é um procrastinador. Procrastina tão completamente, que chega a procrastinar a vergonha que, de procrastinar, deveras sente.

Já foi em Novembro do ano passado que escrevi a Jaime Quendera, perguntando-lhe sobre um tinto da Cooperativa de Pegões que me trazia alegrete e curioso: o Marco de Pegões, um DO Palmela à venda nos supermercados Aldi.


Não sendo bloguista (e não tendo assistido àquele putativo seminário das Caves São João), o enólogo de Palmela respondeu-me sem demora. Confirmou que este Marco de Pegões (há outro vinho com o mesmo nome para exportação) é produzido exclusivamente para o Aldi. Setenta mil garrafas. Castelão puro. Vinhas com mais de vinte e cinco anos de idade. Oito meses em barricas de três e quatro anos, que, ao quinto, são encaminhadas para o Moscatel de Setúbal.

Bebi com prazer umas tantas garrafas da colheita de 2011. Muito chamativo tinto (o leitor sabe que os vinhos de Quendera não se acanham), denso de aroma, lembrando compota de ameixa e chocolate de menta, e vicejante na boca, com certo frescor achocolatado e boa constituição para evoluir. Pode dizer-se que, à data, a madeira estava-se bem fundindo.

Comprei agora uma garrafinha de 2012. 1,99 €. Um euro e noventa e nove. Um euro. E noventa e nove cêntimos. Logo lhes direi como me parece. Daqui por uma catrefada de meses. Se calhar.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Arrebenta-diabos

Mais um achado no Houaiss:
arrebenta-diabos
■ substantivo masculino de dois números
1 primeira refeição matinal; desjejum
2 dose de vinho após o almoço
Na Infopédia, o termo tem como única acepção uma «andada de vinho depois da refeição». Acho muito bem não restringir o arrebentamento de diabos à hora da digestão vespertina. Todos sabemos que de noite é que os cabrões atacam em força.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Gargarejos

Por falar em nomes labreg—nomes, no geral. Ponham os olhos nas suas garrafas de elixir bucal. (Bucal, com u. Boçal é que é com ó, wine lovers.) Elixir bucal é um belo nome, caramba. O Houaiss diz que elixir é um «preparado com substâncias aromáticas e/ou medicamentosas dissolvidas em álcool, glicerina, vinho etc.» Fica a ideia para os foodies — que também não é um nome nada parol—nada mau.

Ora, os boticários e fabricantes de fármacos, não contentes com um belo nome, foram e magicaram dois outros, porventura ainda mais belos, para designar o elixir bucal: enxaguatório (se bem que este não conste nos vocabulários) — e colutório, quiçá o mais esquisito («que denota requinte; delicioso, refinado, delicado») dos três. Colutório tem origem no verbo latino colluere, que significa «lavar bem ou ao mesmo tempo, molhar, vazar ao redor, fazer gargarejos de vinho, azeite». Estão a ver. Uns com tanto, outros com tão pouco.

Dá Deus nozes a quem tem os dentes foodiedos.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Soluço meridional

Diálogo numa garrafeira:

― Desculpe, têm algum vinho no frio?
― Com certeza. De que região?
― A sul dos cinco euros, se fizer favor.