quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Vinho apagador

Melhor ainda é esta, que à primeira vista de An Evening with Robin Williams não consegui perceber. É o início do excerto que aí ficou:

«Agora vou beber um pouco de vinho, por um momento. Um pequeno apagador no quadro da vida.»

quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

Um filha-da-puta

Uma curiosidade sobre esse excerto de An Evening with Robin Williams, de 1982. Aquela primeira pilhéria reza assim: «Há vinhos brancos, há vinhos tintos, mas porque é que não há vinhos pretos, como: Rege, um filha-da-puta. Vai com peixe, carne, qualquer porcaria que ele quiser. Mas não era simpático ter alguém como o Mean Joe Greene a publicitá-lo? É melhor comprares isto, ou eu prego-te o cu a uma árvore.»

Ora, o exposto valeu a Robin Williams um processo judicial, intentado por um distribuidor de vinhos chamado David Rege. Este alegava ter o seu negócio — as Adegas Rege e os vinhos do mesmo nome — sofrido «dano e injúria» com a brincadeira de Williams, que, a seu ver, passavam a ideia de os seus vinhos serem inferiores. Queixava-se de «“libelo comercial”, difamação pessoal, inflicção intencional e negligente de sofrimento emocional, invasão de privacidade e interferência intencional e negligente com ganho económico prospectivo».

Os tribunais não atenderam as pretensões de Rege. No arrazoado jurídico do que parece ser um processo conexo, há um número de considerações bem achadas e seriíssimas: «É fundamental que os tribunais não possam abafar a expressão ajuizando sobre a sua aptidão ou falta de jeito, a sua sensibilidade ou grosseria, nem sobre se ela magoa ou agrada.» «A comédia parte do absurdo e do inexplicável, e, como a fé, tolera o milagroso.» E, pelo meio, a melhor de todas (fazendo o favor de desculpar a minha tradução desabafada de “motherfucker”): «Escusado dizer, é conceptualmente difícil atribuir algum sentido a uma perspectiva de um vinho como um “filha-da-puta”.»

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Um bom rapaz

«Eu gosto do meu vinho como gosto das minhas mulheres: prestes a desfalecer.»

Copos ao alto pelo génio de Robin Williams. Consta que era um bom rapaz. Paz à sua alma.

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

O perfume do tempo

«The business of life is the acquisition of memories. In the end, that's all there is.» O negócio da vida é a aquisição de memórias. No fim, é tudo o que há.

A cogitação é de Mr. Carson, mordomo — e adegueiro, e escanção — de Downton Abbey. Havemos de ir a Yorkshire, shall we?

Aí ficam duas aquisições recentes. O Casal da Azenha Reserva Velho 1960 foi uma alegria que o Barrete Saloio nos deu. Uma cortesia entre Inácios, para nos consolar da falta do Morgado de Bucelas.

Aroma gordo, balsâmico, de café, carne, especiarias e sei lá
que mais. Excelente com o toucinho do céu da D. Fernanda.

Essoutra memória, o José de Sousa 1998, adquiri-a particularmente, numa tardinha de domingo. No mesmo dia, ao almoço, tivemos Tapada do Chaves 2000 branco. Ambos agradaram muito. Como notou a dona da casa, tinham perfume.

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Soluço de grande intensidade

SMS recebido:
Estou a ver anúncio a novo vinho da Herdade do Peso. Trinca Bolotas. Grande intensidade aromática, dizem. Gosto do nome.

SMS enviado:
Também gosto do nome. Da grande intensidade aromática nem tanto. De um modo geral a grande intensidade aborrece-me. É coisa para adolescentes e jovenzinhas.

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Maridagens sushinesas

Dois vinhos supimpas para acompanhar sushi (nós usamos mais dizer sushinês, que é o misto de comidas de olhos em bico que às vezes compramos): JP rosicler (no caso vertente de ontem, o 2012) e Terra d'Alter Viognier (ibidem, o 2013).

Chin-chin!

Soluço cândido

Certo bom rapazinho de ainda nem 25 anos vinha jantar, maila namorada, ao nosso Cafofo. Perguntou se havia de trazer vinho. Respondi-lhe com a pilhéria do costume:

― É claro que não precisas trazer nada, mas, se quiseres, só não vale repetir o Quinta da Mimosa. Traz Mouchão, por exemplo.

― Teu chão?

Mouchão. É baratinho.

― E onde é que há disso?

― Em todo o lado. Caso não encontres, traz Barca Velha, ou assim.

― Está bem. Mas quantas? E é branco ou é tinto?

quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Rosicler

Ando com uma vontade de rosés, que nem lhes digo nada, amigos. Culpa do bom do Malhadinhas cor-de-rosa, que topei há tempos num supermercado fornecido pela distribuidora Garcias (não o encontro em mais nenhures, nem nos Supercor, onde há o branco e o tinto) e me acendeu esta sede nova. A cor muito bonita, com certa feição prometedora de secura; os aromas delicados e vinosos, ao invés de exuberantes e melosos; enfim, os sabores secos prometidos, maila frescura e a formosura apetecidas. Bendito Malhadinhas!

Depois desta aparição, tenho bebido outros rosés muito bons: o Terra d'Alter*, australentejano de Peter Bright; o do Pingo Doce, da Cooperativa de Santo Isidro de Pegões (medalha de prata em Bruxelas!), feito só de Castelão pelo infalível Jaime Quendera; um Ribera del Duero chamado Viñarroyo, 100% Tempranillo, com uma acidez soberba, descoberto no Rubro do Campo Pequeno; o Beyra, outro Tempranillo estreme (curiosamente, usa o nome espanhol da casta, mas acompanhado do português, Tinta Roriz), maravilhoso, ao nível dos brancos da mesma lavra; só para completar o ramalhete rosicler, ajunte-se o JP, malgrado a tampa de rosca e um tantinho de álcool a mais, que o Moscatel Roxo, o carácter bem seco e, já agora, o preço largamente compensam.

Saúde, leitores!

* Prove-se o Terra d'Alter tinto de 2013 quanto antes, novinho como está. «That age is best which is the first, / When youth and blood are warmer». Além de evocar estes versos, fez-me pensar em vinho de talha!

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

Bucellas 2011

Os clássicos redimem-nos. (É possível que eu lesse esta frase ao meu mestre das montanhas e neblinas — um mestre indeliberado, ausente e silencioso — Francisco José Viegas.) Os clássicos salvam-nos da presunção, da ignorância, das certezas absolutas. Os clássicos reconduzem-nos ao essencial.

O Bucellas é um velho companheiro de agruras, alegrias e de todas as horas entrecorridas. Bebo-o como um escudeiro sitibundo, «quando tenho vontade, e quando não a tenho, e quando mo dão, para não parecer demasiado cerimonioso ou malcriado». Inesquecível, aquele 2005 cujas alsacianas eu exinani pródiga e apaixonadamente; memorável, o 2013 de que tomei só dois ou três copos com o Onésimo, meu Capitão e mestre mundi, no passado Dia D, quando desembarcou em Bucelas, sem hesitações nem receios estratégicos ante a chuva copiosa.

Os clássicos marcam as nossas vidas. Os mestres também.



Cavipor. DOC Bucelas. Arinto. João Vicêncio (enol.). 12,5% vol. 2,99 € (Intermarché).

Não sei bem dizer a que cheira. Cheira a coisas indecifráveis, a vento e pedras e despedidas. Não é que seja lírico, nem amaneirado, nem exótico. Os aromas de fruta que perduram são citrinos (digamos limão maduro); os melhores aromas de Bucelas ainda despontam. Bebê-lo é que é. A tal pectina, a tal esperteza, a tal espessura. A modéstia, senhores. A tal modéstia.

quarta-feira, 11 de Junho de 2014

O fracote milagre

«Ouvi dizer que ele transformou água em vinho, mas
aquilo era um Periquita mesopotâmico muita fraquinho.»

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

Soluço conclusivo

Se as Caves São João são mudas, quer dizer que não conseguem fazer vinhos expressivos.

quinta-feira, 29 de Maio de 2014

Soluço otorrinolaringológico

Tem graça que as Caves Velhas ouvem bem, mas as Caves São João parecem surdas que nem calhaus.